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    Notícias25 de maio de 2026

    Falas durante celebração em Araxá geram denúncias de racismo religioso

    por Rede Àṣẹ Araxá

    Falas durante celebração em Araxá geram denúncias de racismo religioso

    Declarações realizadas durante uma celebração no Santuário de São Domingos de Gusmão, em Araxá/MG, na tarde do último domingo (24), provocaram repercussão entre praticantes, lideranças e representantes das religiões de matriz africana.

    Durante a homilia da missa das 17h30, transmitida publicamente pelas redes sociais, o padre Jonathan Costa afirmou:

    “A gente estava conversando na hora do almoço com o Tadeu, que fez o encontro da Pastoral Familiar, e a gente novamente estava falando o quanto as pessoas de igreja satânica ou de outras denominações religiosas de matriz africana têm valorizado mais a Eucaristia. Eles acreditam mais na Eucaristia do que nós, porque uma hóstia consagrada vale 3 mil reais no mercado negro para fazer trabalhos.”

    A fala gerou manifestações de lideranças e comunidades afro-religiosas da cidade e da região, especialmente pela associação feita, durante a celebração, entre religiões de matriz africana e discursos historicamente utilizados para demonizar tradições afro-brasileiras.

    Após a repercussão, representantes da Rede Àṣẹ Araxá, sacerdotes e membros de comunidades tradicionais de terreiro se manifestaram publicamente classificando o episódio como racismo religioso. Segundo as lideranças, esse tipo de associação reforça estigmas históricos direcionados às tradições afro-brasileiras, frequentemente alvo de discriminação, intolerância e processos de demonização ao longo da história brasileira.

    Nas redes sociais, foram publicados vídeos, notas de repúdio e manifestações em defesa da liberdade religiosa e do respeito às religiões de matriz africana, garantidos pela Constituição Federal.

    Manifestação de Babalawo Ifakóládé Agboola:

    “Associar religiões de matriz africana ao ‘satanismo’ ultrapassa o campo da divergência religiosa e ingressa diretamente no terreno do racismo religioso — prática estrutural historicamente usada para demonizar culturas e espiritualidades negras. A Constituição Federal, em seus arts. 5º, VI e VIII, garante liberdade de crença e proteção aos cultos religiosos, enquanto a Lei nº 7.716/89 criminaliza discriminação e preconceito por raça, etnia, religião e procedência nacional. O próprio STF consolidou entendimento de que práticas dessa natureza configuram expressão do racismo, reconhecendo sua gravidade constitucional. Após esse avanço jurisprudencial, a Lei nº 14.532/2023 alterou o tratamento penal da injúria racial, retirando-a do art. 140, §3º do Código Penal e inserindo-a na Lei do Racismo, tornando-a imprescritível e inafiançável. Demonizar tradições afro-brasileiras não é ‘opinião’: é racismo religioso, reprodução de violência histórica, simbólica e institucional contra povos de terreiro, suas ancestralidades e seus direitos fundamentais.”
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    — Babalawo Ifakóládé Agboola

    Manifestação de Baba Jower Ty Sango:

    “Isso é mentira. Isso é preconceito. Isso é intolerância religiosa. Nós, povos de terreiro, conhecemos o valor do sagrado e respeitamos todas as religiões. Diferente do que foi dito, nossas tradições não vivem de atacar a fé de ninguém. Vivemos de ancestralidade, acolhimento, caridade, respeito e espiritualidade. Na Bahia e em várias regiões do Brasil, é comum mães e pais de santo levarem seus iniciados para receber a comunhão, justamente por respeito à Igreja Católica e à fé cristã. Aqui, muitos sequer fazem isso para evitar conflitos e preservar o respeito mútuo. Mas o respeito precisa vir dos dois lados. O mais grave é que não é a primeira vez que esse tipo de ataque acontece. Não vamos nos calar. Não vamos aceitar que nossa fé seja demonizada. Não vamos permitir que discursos preconceituosos continuem sendo tratados como ‘opinião’. Religiões de matriz africana merecem respeito. Nosso sagrado merece respeito. Nossa ancestralidade merece respeito. Queremos retratação pública. Intolerância religiosa é crime.”

    — Baba Jower Ty Sango

    O debate também mobilizou representantes da cultura indígena em Araxá. Em manifestação encaminhada após a repercussão do caso, o Pajé Karkará Uru (remanescente dos indígenas Arachás) afirmou que episódios de intolerância religiosa e apagamento cultural não atingem apenas povos de matriz africana, mas também comunidades indígenas e tradicionais da região. Segundo o relato, práticas de invisibilização histórica e cultural vêm ocorrendo há anos no município, incluindo alterações em símbolos públicos e a retirada de referências históricas ligadas às populações indígenas, negras e quilombolas da cidade.

    “Não é só com vocês da matriz africana. É com nós da cultura indígena também. Tentam apagar a nossa cultura e a nossa história de toda maneira aqui em Araxá. Uma das coisas que fizeram foi na reforma da Praça da Matriz, quando retiraram uma rocha que tinha uma placa falando sobre os indígenas Araxá, sobre o povo indígena da cidade e também sobre os quilombolas. Estão fazendo de tudo para apagar a história do povo negro e indígena aqui em Araxá e para difamar nossa cultura. Procuram demonizar e ridicularizar nossas culturas e tradições, objetivando o apagamento das nossas histórias e a catequização dos nossos povos.”

    O Pajé Karkará Uru também recordou uma placa comemorativa inaugurada em 8 de agosto de 1990, durante solenidade pública realizada no município, que abordava aspectos históricos relacionados à formação cultural e social de Araxá. Segundo o relato, o monumento teria sido removido durante intervenções urbanísticas posteriores na Praça da Matriz, sendo citado como exemplo de apagamento da memória histórica e cultural da cidade.

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    “Esta placa comemorativa da história do município de Araxá foi inaugurada em 8 de agosto de 1990. Eu estive na solenidade junto com Valdir Benevides, Eliza Alves e o prefeito da época. A Praça da Matriz foi remodelada e retiraram a placa de lá. Você sabe onde ela está hoje? É a história de Araxá que está sendo apagada. O brasão original de Araxá, desde 1960, tinha quatro setas. Hoje só tem três e mudaram as cores. Isto é apagamento de memória.”
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    — Pajé Edson Karcará Uru

    Manifestação de Wesley Lemos de Ayra:

    “A valorização dos povos de matriz africana e sua cultura tem de ter o respeito absoluto aos seus cultos e tradições. São imperativos éticos e obrigações jurídicas fundamentais no Brasil. Historicamente marginalizadas, no passado e ainda no presente — como acontece em diversos altares, durante homilias e conversas de bastidores marcadas por preconceitos estruturais — as religiões de matriz africana, como o Candomblé e a Umbanda, encontram na legislação nacional uma proteção rígida que exige respeito de toda a sociedade, independentemente de convicções religiosas particulares. A Constituição Federal de 1988 estabelece a base para essa convivência harmônica. Em seu artigo 5º, inciso VI, determina que ‘é inviolável a liberdade de consciência e de crença, sendo assegurado o livre exercício dos cultos religiosos e garantida, na forma da lei, a proteção aos locais de culto e a suas liturgias’. Esse dispositivo deixa claro que o respeito ao sagrado do outro não é uma escolha individual, mas um dever cidadão tutelado pelo Estado. Ademais, o artigo 215 da Constituição impõe ao Estado a obrigação de garantir a todos o pleno exercício dos direitos culturais, protegendo explicitamente as manifestações das culturas populares, indígenas e afro-brasileiras. No âmbito infraconstitucional, o Estatuto da Igualdade Racial (Lei nº 12.288/2010) reforça essa proteção em seu artigo 24, assegurando o direito à liberdade de consciência e de crença aos povos negros, incluindo a preservação de suas instituições religiosas e a proibição de qualquer ato de intolerância ou discriminação motivada por crença. Complementarmente, a Lei nº 7.716/1989 tipifica como crime a discriminação ou preconceito de raça, cor, etnia, religião ou procedência nacional, punindo atos de intolerância religiosa que tentem demonizar, silenciar ou destruir patrimônios materiais e imateriais dessas comunidades. Zelar pelas tradições de matriz africana é um compromisso coletivo de alteridade. Pessoas de outras religiões devem compreender que a liberdade religiosa é uma via de mão dupla: o direito de professar a própria fé está intrinsecamente ligado ao dever de respeitar a fé alheia. Respeitamos as sagradas hóstias, pois nossos ancestrais assim nos ensinaram. Se alguns não respeitam seus próprios símbolos sagrados a ponto de banalizá-los em suas manifestações, não cabe comparar tais práticas aos povos de religião afro-brasileira. Comparativos como os citados durante a missa no Santuário de São Domingos de Gusmão representam desrespeito às nossas tradições, manifestações e fundamentos religiosos. Valorizar a herança civilizatória africana é reconhecer a dignidade humana e consolidar uma democracia plural, onde a diversidade seja celebrada e a coexistência pacífica seja a regra.”
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    — Wesley Lemos de Ayra

    O caso também repercutiu em páginas de jornalismo e comunicação da cidade. Em publicação nas redes sociais, o jornalista Alex Sander Xexéu divulgou matéria destacando a nota de repúdio emitida pelo Coletivo Cultural Àṣẹ Araxá e a repercussão do episódio entre lideranças religiosas, movimentos culturais e integrantes da comunidade afro-brasileira.

    “A reportagem procurou o Padre Jonathan Costa para esclarecimentos. O sacerdote preferiu não se manifestar sobre o assunto e informou que irá prestar esclarecimentos caso seja acionado junto à Justiça.”
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    — Alex Sander Xexéu

    Até o momento, não houve pronunciamento público oficial da Arquidiocese de Uberaba sobre o ocorrido.

    O espaço segue aberto para manifestação das partes citadas.

    A reportagem poderá ser atualizada caso novos desdobramentos relacionados ao caso sejam divulgados.

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